Não gostaria muito de me atardar sobre questões de proximidade ilogica mas o irraciocismo humano é demasiado curioso, convidando-se a si próprio a olhar descaradamente para onde não deveria. Confúcio era um filósofo antigo ; Platão também o era. Ambos explicavam aos outros a arte de viver em harmonia com os outros e com a natureza. Tardivamente apareceram outros a dizerem a mesma coisa. Mas ninguém respeitou essas regras, começando por eles, dos quais uma boa parte acabou por se suicidar ou vítimas de violência, muitas vezes ocasionadas pelas convicções que endoutrinavam.
Também houve os poetas, os profetas, os românticos. Que lhes aconteceu ou que aconteceu ? Houve guerras nas quais participaram esquecendo os princípios que endoutrinavam, ultrapassando por vezes os limites opostos às suas convicções. Os interesses políticos ou financeiros a que foram assujeitados tiveram razão deles finalmente.
Actualmente vive-se em Portugal algo de semelhante: mas o mal não vem de agora, lá isso não.
Também quero dizer com isto que Portugal não foge à regra, pois os seres humanos são pouco diferentes uns dos outros. Mas há uma certa diferença com certos Portugues.
O Povo sempre se considerou como um senhor no relacionamento com o seu vizinho. Sofria fome e frio mas considerava-se superior à maioria dos seus contemporâneos. Um habitante de uma outra província nunca era o bem-vindo e o da proxima aldeia apenas tolerado. E quando possedia uma galinha a mais jà se considerava um manda-chuva.
Porém era humilde. Temia o mais forte e servia-lhe mesmo de servo afim de obter a sua benção. Não hesitava a esperar um dia ou dois por sua vez numa bicha que regozijava o empregado administrativo.
Alguns emigraram e quando obteram uns quantos tostões pensavam que o resto da população do seu País deveria trabalhar de borla para ele, assim que ele o fez anteriormente.
Acima deles estão os barrigudos que não necessitaram emigrar porque sempre no andar superior. Pecaram também porque semelhantes aos outros salvo que em graus diferentes. Mas sendo eles que guardavam as chaves, já se sabe, ninguém é melhor servido que por si mesmo.
Mas se o pobre obedece à pazada do rico, também inveja o seu pareceiro de infortúnio, d'aí um mal ainda maior que acabou por enferrujar o País.
Os bancos começaram a emprestar dinheiro e os pequeninos que não o tinham quizeram também ter uma casa ou um bom carro, tão bons ou melhores que os do vizinho, mesmo se para tal não saberiam como pagar um empréstimo imposto práticamente por um banco e por uma Europa disposta a vender o que quer que fosse e a todos os custos.
E o Povo esperto que não deu por ela : "Porque não gastar se a Europa nos envia dinheiro ?"
E o Estado mais esperto ainda : "Deixar andar ! Para o próximo mandato não estaremos cá".
E a toda esta gente experimentada pouco lhes importavam um futuro que para eles estava longínquo mas que por ele se fizeram apanhar. Certamente que não nem haviam a cultura de Confúcio nem a de Platão mas deviam haver pensado neles e noutros casos anteriores.
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