O Santo António não trouxe só boas coisas com ele neste verão de 2011. Nesta altura das marchas populares, os populares, esses, encontam-se atarefados a estudar a maneira de não passarem fome num prazo que se quer escasso. Se há ainda gente que tenha vontade de rir, que o faça : a liberdade é uma das bases da república, assim como da democracia, assim que a promulga a « Declaração dos Direitos do Homem » . Se Santo António trouxe vontade de cantar, de dançar e de pular, também trouxe cintos para apertar assim como chaves para bem fecharem as gavetas ; há quem diga que as vão pregar – as gavetas - afim que não sejam abertas muitas vezes. Comer sardinha assada já é hábito e parece que assim vai continuar por muitos « anitos » ainda. Bife de porco ou de perú ainda será como um outro, ainda aparecerá de tempos a outros. Mas a vaquinha ou a vitela ? – Raios, só na vitrina do talho !
Mas peixinho assado é sempre bom, com uma boa tiborna e uma azeitoninha da serra num molho de alho perfumada ao oregão e ao piri-piri. Uma sopinha de caldo verde e tal… E está arrumado. A seguir uma boa sesta sobre a areia da praia, antes de se mergulhar numa água um tanto fria afim de melhor se esclarecerem as idéias. Depois, « toca a andar », se nem só de pão mol e de água fria vive o homem, um mínimo vital lhe bastará. Em tempos de crise não se pode andar atrás de luxos nem alvejar objectos fora do alcance. Ir ao restaurante ficará reservado aos dias festivos, tais os dias de anos ; e nem pensar em convidar muita gente, para se ter um fim de mês assegurado.
Anteriormente ainda se comia uma « saladazinha » de tomate ou de pepino. Agora dizem por aí que os legumes têm bactérias. Depois das vacas houve as aves, a seguir os porcos… E eis os legumes agora.
“Se a doença da « vaca louca » e a gripe aviária foram averiguadas, a febre porcina e a bactéria “Eceh” não passaram de simples tontices para uns, cedência intransigente a lóbis para outros. Verdadeiras declarações de guerra visando países produtores concorrentes, certos do Primeiro Mundo, outros países emergentes do Terceiro Mundo ( Esta mania de passar dum mundo a outro sem transições… - parece que um Segundo Mundo é um mundo virtual).
Afinal a raíz do mal encontrava-se no país acusador, num sanctuário dos sanctuários… O lóbi da agicultura dita biológica ( A biologia é a ciência que tem por ojecto o estudo dos seres vivos), mais uma vez provocou falhanços, desordem, mal-estar e desagrado. Alguém se perguntará um dia se os produtos ditos biológicos o são realmente e por qual razão bactérias desconhecidas fazem a sua aparição em certos centros de pesquisa científica.”
Crise, qual crise ? – Uma crise na crise, talvez. Em tempos de guerra, as pessoas que não morriam bombardeadas ou baleadas morriam com a fome ; outras comiam ervas e tudo o que lhes passava ao alcance da mão afim de sobreviverem. Terminada a guerra, havia uma crise, devido à carência de produtos de primeira necessidade. Tempos pacíficos chegaram procedidos por crises atrás umas das outras. Diz-se sempre : - É tudo devido à crise. Depois de dez anos que se vive em crise. Há vinte anos já havia crise. Há cento e cinquenta anos também já havia crise. Sempre se viveu em crise.
A televisão, há que vê-la o mínimo possível, visto que ela só nos apresenta gente rica, bem vestida, paisagens maravilhosas, cidades enormes nas quais tudo é luxuoso. Uma tentação para as pessoas, que as incita a viajar e a comprar coisas boas.Sem esquecer a publicidade frequente e incessante, apresentando tudo o que faz falta para a vida doméstica : desde o último aspirador que funciona sozinho até à máquina fotográfica que também filma... Só coisas bonitas e boas ! Mas como o dinheiro é muito pouco, quem o gastar fica sem nenhum. Assim, não se olhando para a televisão corta o desejo de comprar isto ou aquilo, que numa época normal seria necessário mas que agora não é indispensável. Há que se guardar uns tostõezinhos, mesmo se forem poucos, que assegurem um fim de um mês que seja mais difícil que um outro : nunca se sabe.
Isto é sátira, claro. Também há que saber rir, mesmo que seja com um sorriso pintassilgo,amarelado,caramelizado. Pois a vida continua com os seus atropelos... A vida necessita de picante, deixaria de ser saborosa se fosse demasiado fácil. Nós adoramo-la exactamente por ela assim ser e por ela assim continuar, por estes caminhos sinuosos e arremendados ; por estas veredas rumo ao céu, com uma linha de horizonte vendada por uma opaca neblina, nata para ser abstracta ; de cara vendada, olhos e ouvidos tapados - afim de não se conhecer a verdade. Porque esta fere, louca,indomptável e por isso escondida.
Lá no alto, outro "santinho"ri às gargalhadas : no seu poleiro dourado, oh quão longe
do solo enlameado, frequentado pela plebe, que ele e os seus "compadres" tanto desprezam. Murmúrios inaudíveis elevam-se na atmosfera saturada por tanto movimento de toda a origem.Uns dizem "p'ra baixo", outros dizem "p'ra cima": é um verdadeiro cafarnaum poluído visualmente e para todos os outros sentidos humanos.
"Meus senhores e minhas senhoras, o momento é delicado, nós pecámos e a hora da redenção chegou."- prega alguém lá na tribuna.
- Nós nada fizémos de mal ! - responde a massa.
- As dívidas acumularam-se, fomos obrigados a pedir dinheiro emprestado e as coisas não nos correram bem. Azar. Ninguém nos quer emprestar mais com as antigas regalias. Somos obrigados a pedir ajuda... Entretanto há que haver paciência, pois são "eles" que vão mandar cá "dentro".
- Puxa !
Murmúrios. Incompreensão.
- Eh pá, esta noite há bola na televisão.- diz alguém.
- Vamos lá a ver isso então ! - responde-lhe outro.
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