lundi 23 mai 2011

Troica


A língua portuguesa já sofreu várias transformações em poucos anos, e continua numa mutabilidade por indução permanente, provocada por factores vários. Por decretos e leis, adapta-se a língua às carências de cada qual, não se hesitando a recorrer a arcaísmos, esquecendo etimologia, etnologia, assim que conceitos originais e básicos. Os políticos, querendo controlar o Sol, a Lua, depois de imporem taxas sobre a luz, a água e mesmo sobre o ar que respiramos, também querem controlar o nosso espírito, decidindo eles mesmo como devemos falar e escrever, omitindo de entregar essa tarefa às gentes de letras e filósofos. Que interessa a competência pois, se esta não tem cor política !
Por vezes, outras palavras emergem também, de uma nascente que se ignora, neologismos inexplicáveis e incompreensívos, plantados lá por mão desconhecida.
Vive-se num mundo cada vez mais difícil de compreender : novas palavras surgem , outras desaparecem , outras resistem ao tempo – permanecendo nas gírias e nas línguas regionais. Outros barbarismos são semeados aqui e acolá por gente que se diz culta, por possuir diplomas que, na maior parte dos casos, nada têm a ver com as letras : - e que não os autoriza portanto a modificar uma língua comum, uma língua que pertence ao povo.
Com a recente crise financeira em Portugal, apareceram palavras de sabor amargo, que todos ignoravam, e outras foram inventadas para o evento, entre as quais a palavra « troica ».
A definição desta palavra fornecida pelos dicionários ingleses é igual à dos dicionários franceses : - um treinó russo puxado por três cavalos e por extensão, um carro puxado por três cavalos. O mesmo nome aplica-se também a triunvirato. Dicionários portugueses ainda recentes contêm a mesma definição. Mas seria esta a verdadeira definição, a palavra mais adequada a esta situação ? Não seriam bois ou burros a puxar as carroças (cujo conteúdo se desconhece) via um rumo desconhecido, por caminhos tenebrosos e minados ? Orelhudos predadores, animais cornudos e ambiciosos,verdadeiras aves de rapina ? Ainda que o cavalo não possua esses atributos.

Arcaísmo.
« Perguntei a uma pessoa, há já alguns anos atrás, onde havia uma retrete.
- Ah ! uma casa de banho, queres dizer ?
- Sim. Porquê, não é a mesma coisa ?
- Essa palacra já não se utiliza. Já desapareceu do dicionário.
Nesse instante olhei para a frente, e um pouco mais longe vi um painel sobre uma casinha correspondendo ao que eu esperava, por cima da porta, pregado ali como que para maldade.
- Aquilo acolá, o que é então ? – e como para me desculpar, assim como para ão ofender a pessoa, lá inventei algo que não recordo ».

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